11 dezembro, 2009

EDUCAÇÃO DO CAMPO: Pedagogia da sobrevivência

Elias Canuto Brandão
Doutor em Sociologia; Pesquisador no Grupo de Estudos e Pesquisa em Políticas e Gestão Educacional (GEPPGE-UEM); Coordenador do Coletivo de Estudos e Educação em Direitos Humanos de Maringá/PR (CEEDH) - E-mail: canutobrandao@hotmail.com.
OBSERVAÇÃO:
Artigo publicado na Revista COMUNICAÇÕES. Universidade Metodista de Piracicaba. UNIMEP/SP, Ano 5, Número 2, Nov. 98, pp. 205 a 213 – ISSN 0104-8481. A partir de 2002 a Revista Comunicações disponibilizou os artigos online. Como este artigo foi publicado três anos antes, tomamos a liberdade de disponibilizá-lo online. Parece ter sido o primeiro artigo em nível de pós-graduação a tratar da Educação do Campo.

Discuto no presente artigo a problemática da educação voltada aos que trabalham, residem e ou dependem direta ou indiretamente do trabalho no campo.
A população rural brasileira deste século foi caracterizada por uma diversidade de grupos. Os grupos mais conhecidos são os de bóias-frias, colonos, peões, meeiros, porcenteiros[1], diaristas, mensalistas, sem-terra, pequenos agricultores e moradores em vilarejos rurais[2]. Mediante essa diversidade e suas especificidades, a discussão de uma educação que problematize a relação entre o homem e a natureza; o homem e a máquina; o homem e a tecnologia; o homem e a educação, torna-se pertinente ao falarmos de uma educação do campo dos grupos que existem e persistem no campo.
Nem todos os que trabalham no campo moram no campo. Apenas uma pequena parcela fixa residência, como é o caso dos sem terra após uma maratona de ocupações, despejos, perseguições, ameaças, prisões, passeatas, caminhadas, negociações, acampamentos e assentamentos, após um clima de violência, terror e cumplicidade. A este respeito, o Documento Pontifício nº 274 é inciso:
A elite fundiária e as grandes empresas empenhadas na exploração dos recursos minerais e das madeiras não hesitaram, em muitas ocasiões, em instaurar um clima de terror para abafar os protestos dos trabalhadores, obrigados a ritmos de trabalho desumanos e remunerados com salários que muitas vezes não cobrem as despesas de transporte, alimentação e alojamento. O mesmo clima se tem instaurado para vencer os conflitos com os pequenos agricultores que cultivam há muito tempo terras do Estado ou outras terras, ou para se apropriar das terras ocupadas pelos povos indígenas.
Nestas lutas utilizam-se métodos intimidatórios, provocam-se prisões ilegais e, em casos extremos, pagam-se grupos armados para destruir os bens e as colheitas, para tirar poder aos líderes das comunidades e desembaraçar-se de pessoas em vista, como aqueles que tomam a defesa dos débeis, entre os quais se devem recordar também muitos responsáveis da Igreja.
Os representantes do poder público, muitas vezes, são diretamente cúmplices destas violências. A impunidade aos executores e aos mandatários dos crimes é garantida por deficiência na administração da justiça e pela indiferença de muitos Estados para com os instrumentos jurídicos internacionais relativos ao respeito dos direitos humanos. (PONTIFÍCIO Conselho “Justiça e Paz”, 1998, pp. 20 e 21).
A maioria dos trabalhadores do campo, sejam eles bóias-frias ou proprietários de terra – pequeno, médio ou grande – moram nas periferias das cidades, vilas, vilarejos, bairros e patrimônios, muitas vezes ausentes do processo político, econômico, cultural e educativo mas que, em épocas de eleições, são lembrados, citados e procurados.
Programas e projetos educacionais são pensados e elaborados no intuito de atingir os trabalhadores em seus locais de moradia. Como na maioria das vezes são pensados por uma “elite culta” que determina carga horária, presença, avaliação, hora de chegada e saída, além do conteúdo a ser trabalhado, nem sempre as pretensões projetadas são viabilizadas. Para quem trabalha no campo, os parâmetros educacionais não podem e nem devem ser os mesmos das regiões urbanas.
Para pensar uma educação para o homem do campo, é bom termos noção de quem ele é. Que tempo dispõe já que se levanta às 3, 4 ou 5 horas da madrugada para trabalhar e não tem hora de retorno para descansar. Parcela da população trabalhadora rural já desejou estudar ou tentou participar de um processo de aprendizagem. As tentativas geralmente são seguidas de evasão por não haver distinção entre o homem urbano e o homem rural quanto a suas possibilidades de tempo/horário.
As potencialidades do homem do campo ainda não são conhecidas pelos educadores urbanos de formação urbana. São estes educadores que trabalham os camponeses, o que resulta em dificuldades de desenvolvimento do processo educativo.
Os problemas educacionais que afetam ao homem do campo ultrapassam os limites estaduais. Nas últimas décadas os governos focalizaram investimentos nas escolas urbanas, desconhecendo os que moram ou dependem do campo para sobreviver. O descaso para com uma educação voltada para o campo é notória quando observamos que na zona rural restou apenas os prédios abandonados e as lembranças de quem neles estudou ou as fotos que documentam o passado.
Entidades, Movimentos e Associações discutem propostas, desafios e alternativas voltadas ao homem que continua no campo ou que esteja retornando a ele, sejam índios; sem terra assentados ou em processo de assentamento; pequeno agricultor; meeiro ou colono e, propostas de como terem acesso à educação. É uma preocupação que permeia a sociedade brasileira como um todo e foi uma das preocupações da Conferência Nacional “Por Uma Educação Básica do Campo”[3], onde nas falas dos conferencistas e participantes a tonalidade da discussão permeava a preocupação do pensar o que fazer e como fazer para que o homem do campo não fosse prejudicado em seus direitos constitucionais à educação. No primeiro e sétimo item de “COMPROMISSOS E DESAFIOS” aprovados na Conferência em Luziânia/GO em 31 de julho de 1998, ficam transparentes as preocupações:
1. Vincular as práticas de Educação Básica do Campo com o processo de construção de um Projeto Popular de Desenvolvimento Nacional.
A Educação do Campo tem um compromisso com a Vida, com a Luta e com o Movimento Social que está buscando construir um país onde possamos viver com dignidade.
A Escola, ao assumir a caminhada dos povos do campo, ajuda a interpretar os processos educativos que acontecem fora dela, e contribui para a inserção de educadoras/educadores e educandas/educandos na transformação da sociedade.
7. Produzir uma proposta de Educação Básica do Campo.
A Educação do Campo, a partir de práticas e estudos científicos, deve aprofundar uma pedagogia que respeite a cultura e a identidade dos povos do campo: tempos, ciclos da natureza, mística da terra, valorização do trabalho, festas populares,...
A Escola necessita repensar a organização de seus tempos e espaços, bem como as práticas de seus educadores / suas educadoras para dar conta deste novo desafio pedagógico.
Ao término da Conferência, os participantes assumiram alguns compromissos através do documento final aprovado na Assembléia intitulado: “DESAFIOS E PROPOSTAS DE AÇÃO”, provocando educadores, coordenadores pedagógicos, administradores, Secretários de Educação, Ministro da Educação e equipe a repensarem a educação do campo a partir da realidade concreta local e regional, respeitando os valores morais, culturais, tradição, etnias, festas, cor, raça..., do homem do campo, independente de suas condições de vida e ideologia. Entre os compromissos, destacarei alguns sobre os valores culturais, sobre a proposta de educação e sobre como implementar as propostas de ação da Conferência:
- Identificar e resgatar os valores culturais que caracterizam os povos do campo, que consideramos essenciais para o desenvolvimento da cidadania: relação com a natureza, percepção do tempo, valorização da família, experiência da entre-ajuda.
- Compreender as raízes dos povos do campo (valores, moral, tradição, etnias, festas, religiosidade popular, histórias da luta do povo, símbolos, gestos, mística...) e incentivar produções culturais próprias, sensibilizando a sociedade para valorizá-las.
- Realizar eventos que expressem e promovam as culturas camponesas, indígenas, quilombolas, transformando as escolas em centros de cultura.
- Construir trabalho pedagógico, específico e articulado, com técnicos, pesquisadores e educadores para que busquem conhecer e respeitar os valores culturais dos povos do campo, de acordo com as suas regiões, tendo como eixo a construção do conhecimento e o processo participativo.
- Desenvolver pesquisas que resgatem as memórias e as histórias das culturas regionais.
- Incluir as relações de gênero e etnia no processo educativo.
- Garantir o acesso à cultura tecnológica contemporânea, desde que apropriada.
- Aprofundar uma pedagogia que respeite a cultura e a identidade do povo do campo: tempos, ciclos da natureza, festas populares, amor à terra, valorização do trabalho na sua dimensão educativa, respeitando as diferenças locais e regionais.
- Envolver as universidades no debate quanto à inclusão de linhas de pesquisa, atividades de extensão e de ensino a respeito do campo.
- Propor e participar da elaboração ou alteração dos projetos político-pedagógicos e dos currículos das escolas do meio rural, enfatizando a reforma agrária, a luta pela terra e a permanência no campo e as lutas indígenas.
O desenvolvimento destes compromissos significa uma adaptação brusca ou rompimento com os currículos pedagógicos urbanizados, respeitando a realidade do campo que merece uma leitura e uma interpretação especial sem desmerecer e desconhecer as pesquisas científicas e os avanços tecnológicos proporcionados nas últimas décadas. A questão neste final de milênio não é mais o confronto do homem com o homem e sim a forma como este homem pode relacionar-se melhor com a natureza, com a máquina, com a ciência e com a tecnologia a seu dispor.
Poucos são os que ainda hoje permanecem residindo no campo. O campo tornou-se local de trabalho e a cidade tornou-se dormitório. Os que permanecem no campo perderam os filhos que migraram para as cidades à procura de emprego e estudo. Os que foram junto com os filhos para as cidades, retornam para trabalhar no campo. Os filhos não retornam juntos por não verem no campo um futuro promissor. Os que retornam reclamam a falta de uma política agrícola do governo que incentive os agricultores a permanecerem no campo, morando, plantando, produzindo e comercializando. A falta de uma política agrícola expulsou as famílias camponesas nos últimos 40 anos em direção às cidades. Ouvindo famílias imigradas observamos que culpam as geadas e os baixos preços no caso do Sul e Sudeste, ou a seca no caso do Nordeste. Aprofundando as observações e as leituras dos acontecimentos políticos e sociais vemos que a expansão do capitalismo tem o objetivo de transformar o campo e a cidade em espaços de produção para industrialização e exportação.
Quando dizemos que as grandes transformações que ocorrem no mundo rural são devidas à expansão do capitalismo, não estamos mentindo ou falseando a verdade. Entretanto, estaremos simplificando demais a questão se nos limitarmos a ver meras relações de causa e efeito entre o capital e os problemas que vão surgindo. Desde logo, convém dizer que o capitalismo está em expansão tanto no campo quanto na cidade, pois essa é a sua lei: a lei da reprodução crescente, ampliada. A tendência do capital é a de tomar conta progressivamente de todos os ramos e setores da produção, no campo e na cidade, na agricultura e na indústria. (MARTINS, 1981, p. 152).
Nas duas últimas décadas tem ocorrido uma nova caracterização da migração. Muitos que haviam migrado “retornam” ao campo de várias formas. Citarei três exemplos.
O primeiro são Prefeituras que arrendam terras e deslocam famílias pobres e desempregadas para as terras arrendadas. Esta política paliativa não resolve os problemas sociais e econômicos: falta de Reforma Agrária, emprego, saúde e educação.
O segundo, é a idéia de Reforma Agrária criada pelo governo do Paraná, Jaime Lerner, através das “Vilas Rurais”[4] que também não muda nada em relação aos problemas do arrendamento. Para cada família é repassada uma quantidade irrisória de terra. É insuficiente para a família sobreviver. As famílias que mudam para as Vilas Rurais geralmente continuam dependentes do trabalho de bóias-frias e com todos os problemas como o da falta de saúde, transporte, comunicação, educação.
O terceiro é o retorno ao campo como resultado de necessidade da sobrevivência caracterizada nos acampamentos e ocupações de terras ociosas realizados pelos trabalhadores organizados no Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra - o MST. O resultado destes acontecimentos tem sido as desapropriações que o governo federal obriga-se a realizar, viabilizando concretamente muitos assentamentos que provam, na prática, que a Reforma Agrária é possível. Em muitos assentamentos, a prática do trabalho cooperativo tem demonstrado resultados excelentes a nível cultural, econômico e educativo, recebendo prêmios internacionais e visitas constantes de estudantes, de professores, de participantes de movimentos sociais e religiosos, dos participantes de comunidades organizadas, além de estarem implementando o que há de mais moderno na sociedade: a tecnologia, através de pessoas especialmente preparadas, quer sejam agrônomos ou técnicos, com o uso de computadores e máquinas para industrialização.
As novidades e experiências na área da educação no MST vêm provocando nos Conselhos e nas Secretarias de Educação em nível municipal, estadual e federal o “aceite” em trabalhar conjuntamente uma educação de acordo com os interesses e necessidades dos assentamentos ou acampamentos. Neste sentido Roseli Caldart, expressa que:
A breve, mas intensiva, trajetória histórica do MST no campo da educação vem se desenvolvendo através de dois eixos complementares, às vezes tensionados, entre si: a luta pelo direito à educação e a construção de uma nova pedagogia[5]. É da combinação de ambos que resulta o que se tem chamado de Proposta de Educação do MST [...][6]. (CALDART, 1997, p. 39).
As experiências e as necessidades criaram a possibilidade da implementação de um Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (PRONERA), voltados aos assentamentos. Do Programa fazem parceria
[...] o Governo, as Universidades e os Movimentos Sociais Rurais, com o objetivo de desencadear um amplo processo para Educação de Jovens e Adultos nos assentamentos de Reforma Agrária” e de “fortalecer a educação nos assentamentos de Reforma Agrária, utilizando metodologias específicas para o campo, que contribuam para o desenvolvimento rural sustentável no Brasil. (PRONERA – Manual de Operações, pp. 5 e 10).
Em alguns estados do Brasil o PRONERA já está sendo executado. O problema concreto de viabilização, implementação e execução em todos os estados parece que será de ordem financeira num primeiro momento e num segundo momento, talvez seja de ordem política e ideológica.
Continuando a reflexão da migração campo-cidade, deparamo-nos também com os chamados trabalhadores assalariados rurais - os bóias-frias. A respeito destes trabalhadores que residem nas periferias das cidades, vilas e patrimônios, os trabalhos a nível educativo e de organização é mais complicado já que os mesmos não possuem residência fixa, migrando, imigrando e emigrando constantemente à procura de trabalho. É um vai-e-vem permanente dentro de um Estado ou Município e para fora deles.
Desconhecemos os dados exatos sobre o número de bóias-frias no Brasil. Além disso deparamos com as dificuldades em afirmar ser um determinado trabalhador um bóia-fria ou não. Uma pessoa que mora na periferia de uma cidade pode, no dia de hoje ou neste mês, estar trabalhando de diarista ou mensalista no campo como bóia-fria e, na semana ou mês seguinte trabalhar de servente de pedreiro em uma construtora, complicando suas características: é um bóia-fria ou operário? É os dois? Como se auto-identifica? Como identificá-lo? Sabemos que são mulheres, crianças, jovens e velhos que não tem parada, moradia, proteção nem segurança. Que não são respeitados como seres humanos, nem em épocas de eleições pois, nestas épocas são procurados para, em troca de votos, receberem algum favor: odontológico, alimentar, pagamento de contas atrasadas de água, luz ou aluguel, cesta básica de alimentos, roupas ou calçados. Além da falta de uma estratégia educacional voltado a estes trabalhadores rurais, somam-se a(s):
· falta de segurança nas estradas, acompanhada das péssimos qualidades nos transportes em ônibus , caminhões, kombis, caminhonetes e tratores;
· falta de segurança nos locais de trabalho, com cidadãos que se machucam e são mal atendidos, isto quando são atendidos;
· falta de água potável para beber;
· falta de locais para descanso e coberturas de chuva;
· fumaça das queimadas da cana;
· cinzas que ingerem da cana queimada;
· comida que azeda e, devido a fome, obrigam-se a comer;
· broncas que levam quando param cansados em pleno trabalho...
No documento “Conflitos no campo Brasil’92”, a Comissão Pastoral da Terra (CPT) denuncia a gravidade do problema que envolve os trabalhadores assalariados rurais, conhecidos como bóias-frias.
Não obstante a gravidade de que se reveste a exploração do trabalho escravo no campo, inclusive por seu caráter criminal, não menos preocupante é a situação dos assalariados rurais. Além das dificuldades do próprio trabalho e do espaço geográfico – que pela distância e dificuldade de acesso a informações e apelos facilita sobremaneira a exploração de sua mão-de-obra – ainda têm sua situação agravada pela recessão.
Na cidade e no campo, a pobreza assume dimensões alarmantes. Enquanto o Brasil solidariza-se com a Somália, as autoridades fecham os olhos para as várias “somálias” existentes aqui. Nas cidades, 70% da população experimenta formas agudas de pobreza. No campo, a grande maioria dos assalariados se encontra na categoria dos que ganham menos de um salário mínimo e sequer têm carteira assinada.
A concentração da propriedade rural tem levado enormes contingentes de lavradores a procurar o trabalho assalariado como última esperança de sobreviver. Contudo, logo vêem que ali também não há muita esperança. É o retrato nu de um modelo agrário e agrícola que concentra terra, renda e tecnologia. Dados da Cepal indicam que o Brasil se encontra entre os países em que a concentração é mais escandalosa.
De acordo com o IBGE, os assalariados rurais são, aproximadamente, seis milhões de pessoas
[7], destas apenas 5% possuem contrato de trabalho. Isto significa que apenas 300 mil possuem as garantias sociais, asseguradas na Constituição Federal. Apenas em relação a estes são recolhidos os encargos sociais devidos aos cofres públicos. Aliada à exploração dos trabalhadores, há uma vergonhosa fuga de recursos da Nação. Somada a tudo isso, existe ainda a violência do dia-a-dia que se exprime nos acidentes de trabalho. (CPT, 1993, p. 45).
Tentativas e experiências de educação de jovens e adultos vem sendo realizado junto aos trabalhadores assalariados rurais em nível nacional pelas Organizações Não-Governamentais (ONGs) ou pelo Governo Federal através do programa “Alfabetização Solidária”. Observa-se que apesar dos programas e projetos, o número de analfabetos continua crescendo em todas as regiões do Brasil, significando que não basta querer apenas diminuir ou acabar com o analfabetismo sem uma política educacional séria e altos investimentos sem demagogia.
A educação do campo hoje, 1998, deixa de ser uma questão inatingível. As proposições de trabalho dos movimentos sociais caminham para uma prática de efetivar políticas voltadas à educação do campo.
Dentre as forças sociais que apresentam-se no processo de construção de um projeto nacional, o MST tem assumido a tarefa de coordenar as discussões com o apoio público da UNICEF em garantir as publicações necessárias à dinamização das discussões coletivas e da UNESCO em realizar levantamentos de dados quantitativos e qualitativos necessários ao desenvolvimento das proposições.
São estas práticas que nos possibilitaram realizar a presente discussão no intuito de comunicar, aos educadores do Brasil, a importância do trabalho educativo do campo.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BARBOSA, Leila Maria Alvarenga e MANGABEIRA, Wilma Colonia. A incrível história dos homens e suas relações sociais. 4ª ed., Petrópolis: Vozes, 1985.
CALDART, Roseli Salete. Educação em movimento: Formação de educadoras e educadores no MST. Petrópolis, RJ : Vozes, 1997.
COMISSÃO PASTORAL DA TERRA. Conflitos no campo Brasil’92: Luta e sonho na terra. São Paulo: Loyola, 1993.
CONFERÊNCIA NACIONAL POR UMA EDUCAÇÃO BÁSICA DO CAMPO. Compromissos e desafios. Luziânia-GO: Xerox, 1998.
__________. Desafios e propostas de ação. Luziânia-GO: Xerox, 1998.
COORDENADORIA ECUMÊNICA DE SERVIÇO - SALVADOR, BA. Declaração universal dos direitos humanos. 3º ed., São Paulo: Paulinas, 1978.
FUNDAÇÃO DE DESENVOLVIMENTO, EDUCAÇÃO E PESQUISA – FUNDEP. Coragem de educar: Uma proposta de educação popular para o meio rural. 2º ed., Petrópolis: Vozes, 1995.
MARTINS, José de Souza. Os camponeses e a política no Brasil. Petrópolis: Vozes, 1981.
MINISTÉRIO EXTRAORDINÁRIO DE POLÍTICA FUNDIÁRIA - MEPF e INSTITUTO NACIONAL DE COLONIZAÇÃO E REFORMA AGRÁRIA - INCRA. Programa nacional de educação na reforma agrária - PRONERA - Manual de operações. Brasília-DF, 1998.
PONTIFÍCIO CONSELHO “JUSTIÇA E PAZ”. Para uma melhor distribuição da terra: O desafio da reforma agrária. Documentos Pontifícios’274. Petrópolis : Vozes, 1998.
NOTAS DE RODAPÉ
[1] Os meeiros e porcenteiros, assim como os colonos e os peões são, na atualidade, grupos já extintos ou em extinção devido a mecanização, a urbanização e o êxodo rural.
[2] Ao falar em vilarejos rurais, refiro-me às famílias que passam a morar nas chamadas “Vilas Rurais” próximas às cidades. As Vilas Rurais são resultado de uma política do Governo Jaime Lerner, do Paraná, de retornar o homem ao campo, ação à parte do processo da Reforma Agrária e à margem do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra - MST -, apesar que nos MCS (Meios de Comunicação Social) o governo divulga que o Paraná está fazendo a verdadeira reforma agrária e mostra as Vilas Rurais como exemplo. Uma Vila Rural é parceria entre Governo do Estado e Prefeitura Municipal interessada que, compram alguns alqueires de terra dividindo-os em pequenos lotes e construindo uma casa para cada família escolhida pelos idealizadores.
[3] A Conferência Nacional “Por Uma Educação Básica do Campo” ocorreu em Luziânia/GO entre 27 a 31 de julho de 1998, coordenada pela CNBB, MST, UNICEF, UNESCO e UnB. A Conferência é resultado do I ENERA (Encontro Nacional dos Educadores da Reforma Agrária) que aconteceu em Brasília/DF, entre 28 a 31 de julho de 1997.
[4] Mais informações sobre as “Vilas Rurais”, leia a nota de rodapé nº 2.
[5] O grifo é da autora.
[6] A Proposta de Educação do MST encontra-se no Caderno de Educação nº 8: “Princípios da Educação no MST”. São Paulo, 1996..
[7] Os dados do IBGE é dos anos 80, significando que neste ano de 1998 o número de assalariados rurais é maior.

11 outubro, 2007

Surgimento e importância da sociologia em diferentes disciplinas

 

SURGIMENTO E IMPORTÂNCIA DA SOCIOLOGIA EM DIFERENTES DISCIPLINAS


Elias Canuto Brandão
Doutor em Sociologia. Docente no Colegiado de Pedagogia da Universidade Estadual do Paraná (UNESPAR – Campus Paranavaí)
E-mail: eliasbrandao.unespar@gmail.com.br ou canutobrandao@hotmail.com

Introdução

Diariamente estamos envolvidos social e politicamente com nossos pares e concorrentes em pequenos ou grandes grupos, interagindo-nos socialmente e disputando espaços político, cultural e econômico na sociedade.
Como a interação social não escolhe dia, local, universidade, formação, curso, disciplina ou grupo social, ocorrendo na família, clube, universidade, trabalho, ônibus e sala de aula, é indicativo que nos aprofundemos no estudo da ciência sociologia, visando compreendermos o todo da sociedade e suas formas de organização e disputas pelo controle dos espaços e dos poderes.
Desta forma, a sociologia tem por objeto estudar as interações e relações sociais em e nos grupos e tudo que neles ocorrem e decorrem socialmente (maneiras de pensar, sentir e agir), formas de controle e de disputas, o que direta e indiretamente influencia no comportamento e na estrutura social do grupo, da sociedade e dos poderes.
Independente dos cursos de graduação (administração, contabilidade, economia, enfermagem, educação física, direito, pedagogia, matemática, letras...), não há justificativas que sustentem questionamentos sobre a não importância do estudo da sociologia, considerando que, primeiro, vivemos em sociedade e em grupo social, interagindo-nos uns com os outros, o que por si, justifica o estudo da sociologia. Não nascemos isolados e vivemos em comunidade. Ao adentrarmos o mundo do trabalho, temos que nos adaptar a uma realidade nova e trabalharmos em equipe, onde as disputas podem ser acirradas, honestas e desonestas. Enfim, a sociologia na formação do estudante ou pesquisador acadêmico objetiva possibilitar que o mesmo tenha um conhecimento sustentável sobre a sociedade que ele está inserido, contribuindo com os mais diferentes debates sociais e políticos por meio da pesquisa bibliográfica e de campo. Destacamos que, independente do curso de cada acadêmico, em princípio todos são pesquisadores.
Social e profissionalmente estamos em contato com pessoas na empresa, sala de aula ou em um consultório. Sempre estamos nos socializando, interagindo com pessoas, influenciando ou sendo influenciado por elas e ou pelo grupo social do qual fazemos parte: clube, igreja, associação, universidade, sindicato...

Antes do surgimento do termo sociologia

Na antiguidade ou no presente, nenhum tipo de animal viveu só. Os agrupamentos sociais marcaram e marcam o convívio social, seja por questões de convívio e instinto, seja por questões de defesa pessoal e do grupo. Assim surgiram os governos no Egito, Mesopotâmia, Roma ou Brasil, no Oriente e no Ocidente. O marcante é a vivência grupal, socializando-se. Destacamos que os animais racionais (os homens) avançaram neste processo e desenvolveram habilidades que outros animais (os irracionais) não desenvolveram e continuaram a viver como se na pré-história.
A evolução do animal racional foi tamanha que na contemporaneidade tem sido capaz de sua autodestruição por meio do desenvolvimento da ciência e da tecnologia contra si e seus pares, por meio de bombas como atômica e das guerras. Por outro lado, esta evolução foi resultado do desenvolvimento da escrita e da fala na antiguidade, contribuindo para o surgimento de várias áreas das ciências e da comunicação dos componentes dos grupos.
Destaque-se que a comunicação – por meio da fala – entre os animais racionais ocorre há séculos – milhares, milhões ou bilhões de anos – e, mesmo que a fala não tivesse existido, estariam os animais, talvez irracionais, vivendo em grupo, pois a vida em grupo faz parte dos animais, independente de sua categoria por espécie. Diferente da fala praticada entre os animais racionais, a escrita não passava de rabiscos ou desenhos soltos que se evoluiu aos poucos, por séculos. A fala tem sido reconhecida como a primeira grande revolução da história? Sem a Revolução “Fala”, os animais racionais (categorizados como seres humanos) teriam tido dificuldades de comunicação entre eles e entre outros diferentes grupos sociais.
Por que não reconhecer também que a segunda grande revolução da história foi o desenvolvimento da escrita e de sua interpretação, a leitura? A Revolução da Escrita e da Leitura também foi resultado de um processo histórico lento e gradual, que perpassou milhares ou milhões de anos e que só foi datado pelos historiadores e cientistas há aproximadamente cinco mil anos a.C.
A Revolução da Escrita e Leitura foi resultado de brincadeiras, erros e acertos na interpretação de sinais e rabiscos entre crianças, jovens e adultos, homens e mulheres da antiguidade.
As revoluções da fala, escrita e leitura não significaram o início da vida em sociedade, mas o aperfeiçoamento e desenvolvimento da vida em sociedade, resultando na organização das cidades-estados e no aperfeiçoamento das técnicas e da ciência que continua em desenvolvimento.
Por que não reconhecer que as revoluções da fala e da escrita possibilitaram a revolução do conhecimento e que foram mais importantes que as revoluções Francesa e a Industrial? Foram elas, enquanto revoluções ainda na antiguidade que possibilitaram os diferentes grupos sociais antigos a se comunicarem e a desenvolver rápidas habilidades e criatividades a partir de 5.000 a.C., resultando no desenvolvimento da ciência e tecnologia contemporânea, assim como na concretização de centenas de guerras civis e militares, com armas bélicas e atômicas, locais, regionais e mundiais.
Sem a Revolução da Escrita talvez não soubéssemos das experiências políticas dos impérios do Egito, Mesopotâmia, Grécia e Roma. Não soubéssemos das formas de organização das religiões e culturas antigas e medievais. Não tivéssemos tido o mundo feudal e o Renascimento das idéias, nem vivenciado a ambição de Hitler em dominar o mundo através da Alemanha e não estaríamos presenciando o Império Americano intervindo político e militarmente em todos os espaços da terra, apesar da ascensão economia da China e da organização dos grupos das intituladas potências dos oito países mais ricos da terra ou vinte países com potencial visibilidade econômica, assim como blocos econômicos organizados nas diferentes partes dos continentes como a UNIÃO EUROPÉIA; NAFTA (Tratado Norte-Americano de Livre Comércio); MERCOSUL (Mercado Comum do Sul); PACTO ANDINO; APEC (Cooperação Econômica da Ásia e do Pacífico); ASEAN (Associação de Nações do Sudeste Asiático); SADC (Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral); MCCA (Mercado Comum Centro-Americano) ou Aliança do Pacífico (bloco econômico latino-americano).
Sem a Revolução da Escrita, o que seria da documentação histórica sobre a divisão da terra em mundo ocidental e oriental, norte e sul, países pobres e ricos economicamente, primeiro, segundo e terceiro mundo, globalização e internacionalização, liberalismo e neoliberalismo, positivismo ou marxismo, sistema capitalista, socialista ou comunista?
Sem as primeiras revoluções, poderíamos estar no mundo antigo, sem ciência e tecnologia, talvez andando eretos. E o que teria sido do controle ideológico da Igreja medieval, da existência das cruzadas para o Oriente, da inquisição sobre os pensadores e da usura, das grandes navegações e invasões de continentes por portugueses, espanhóis, holandeses e ingleses, na América ou na África?
Sem a Revolução da Escrita, o desenvolvimento tal qual vivenciamos poderia ser totalmente diferente e nem diria atrasado, mas noutra dimensão aos olhos da formação ideológica ocidental. Estaríamos ainda nos comunicando primitivamente? Quem sabe. Possivelmente sem preocupação com o acúmulo de capital, bens e poder. Também talvez não tivéssemos tido desmatamento em todos os continentes e os nativos (intitulados de índios pelos invasores portugueses) não teriam sido dizimados no Brasil, assim como os negros não teriam sido capturados na África e escravizados no Brasil. Talvez não tivéssemos energia elétrica, revolução industrial ou francesa, aviões e chegada do homem à lua, primeira e segunda guerra mundial, nem mesmo a guerra nas estrelas e a água não seria potável e sim, natural.
Considerando que o homem vive em sociedade, ao se desenvolver potencializa-se para avanços e autodestruição. Assim é a história das sociedades. Os homens vivenciaram experiências antigas e medievais, orientais e ocidentais e, o renascimento das idéias de pensadores como Maquiavel, Tomás Morus, Tomaso Campanella, Francis Bacon, Tomas Hobbes, entre outros no mundo ocidental contribuíram com o aniquilamento do sistema feudal – as monarquias –, adubando o avanço do sistema capitalista que se concretizou pela Revolução Francesa e Industrial. Devido a rapidez das invenções tecnológicas e a globalização, o futuro das sociedades é uma incógnita.


Renascimento

Diferente da Idade Antiga e Média, neste período surgem autores mais realistas sobre os fenômenos sociais, contribuindo com mudanças que só foram sentidas séculos mais tarde. Entre os autores, destacamos Maquiavel, Tomás Morus, Tomaso Campanella, Francis Bacon e Tomas Hobbes.
·         Nicolau Maquiavel (1469-1527), historiador e poeta, na obra "O príncipe" – um dos livros políticos mais completos –, contribuiu na construção do conceito de Estado atual.  O livro sugere, entre outras, a famosa expressão os fins justificam os meios, defendendo a centralização do poder político e não propriamente o absolutismo;
·         Tomás Morus (1478-1535), diplomata, escritor e advogado, escreveu entre outras, a obra "Utopia". Embora utopia signifique lugar nenhum, para Morus é uma concepção teórica de um estado perfeito, de plenas liberdades, sobretudo religiosa, em contraposição à sociedade inglesa com problemas estruturais e conjunturais;
·         Tomaso Campanella (1568-1639) filósofo, poeta e teólogo dominicano, escreveu várias obras, entre elas destaca-se a "Cidade do sol" – no mesmo plano de Utopia. Cidade ideal, perfeita;
·         Francis Bacon (1561-1626), político e filósofo, escreveu a obra "Nova Atlântida", que trata de uma experiência em uma ilha por veleiros que iam para China e Japão e que corriam risco no mar, mostra a natureza como uma forma de viver frente o avanço industrial;
·         Tomás Hobbes (1588-1679), matemático, teórico político e filósofo, em a obra "O Leviatã", coloca sua visão de natureza humana, dizendo da necessidade de se ter governos e sociedades.
Os renascentistas, descordando do modelo de sociedade que vivenciavam, propunham e visualizavam uma sociedade sem problemas e utópica, semelhante ao que contemporaneamente defendemos como democrática e democrática participativa. Séculos à frente não estaremos sendo analisados como utópicos?


No Século XVIII

Novos pensadores analisam a sociedade de forma mais realista, sem, no entanto, apresentarem a necessidade de uma ciência específica que analisasse a sociedade da época. Entre os pensadores, destacamos:
Giambattista Vico (1668-1744), com "A nova ciência" defende a teoria de que “a sociedade se subordina a leis definidas, que podem ser descobertas pelo estudo e pela observação objetiva”. Diz: “O mundo social é obra do homem”.
Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), afirma entre outras teorias em "O contrato social" que “[...] o homem nasce puro e a sociedade é que o corrompe”.

Século XIX e os precursores e clássicos da sociologia

Com o avanço da organização da burguesia e do capitalismo que dividia a sociedade entre classes sociais distintas (proprietários dos meios de produção e proletários), surgem pensadores como Henri de Saint-Simon, Joseph Proudhon e Auguste Comte que questionam a sociedade da época, tornando-se os precursores da sociologia.
Auguste Comte, por exemplo. É considerado o pai do termo sociologia por ter usado, em 1839, no Curso de Filosofia Positiva, a palavra sociologia. Naquele momento, diante dos problemas sociais, a sociologia – enquanto possível ciência – surge como resposta acadêmica aos desafios postos e aparentemente difíceis de serem explicados e resolvidos.
Também são considerados precursores Herbert Spencer e Gabriel Tarde. Destacamos, no entanto, como clássicos da sociologia, os pensadores Émile Durkheim, Max Weber e Karl Marx. Sobre estes três vale um estudo e pesquisa sobre cada um deles. Apenas adiantamos que:
  • Émile Durkheim (1858-1917) foi filósofo. Divulgou a sociologia enquanto ciência e realizou estudos dos fatos sociais: modo de vestir, língua, religião, sistema monetário, leis.
  • Max Weber (1864-1920) foi intelectual, jurista e economista. Investiu nos estudos para compreender as ações sociais na sociedade.
  • Karl Marx (1818-1883) é considerado um intelectual e revolucionário alemão. Na prática foi um teórico social, investigando e descrevendo sobre as questões sociais, políticas e econômicas observadas durante a formação do sistema capitalista.
Com os precursores e os clássicos, as investigações dos fenômenos sociais ganharam caráter científico e a sociologia, enquanto ciência avançou nas investigações para compreender como a sociedade se organiza e como seus componentes se relacionam e interagem.
Diante do exposto, não há como negar a importância do estudo da sociologia, conhecendo como de fato surgiu e enquanto academia o que pode ser analisado, questionado e discutido seja nas áreas de humanas, biológicas, saúde ou exatas.


A sociologia na formação continuada e na academia

A sociologia contribui com a formação de qualquer ser humano, seja cidadão ou camponês, professor ou pesquisador, possibilitando terem um conhecimento sustentável sobre a sociedade que ele está inserido, contribuindo com os mais diferentes debates sociais e políticos. No caso da academia, por meio da pesquisa bibliográfica e de campo, das discussões e análises, com técnicas e metodologias, possibilitando que o acadêmico, independente da graduação – em princípio – sejam pesquisadores ou pesquisador em potencial, podendo ser cientista.
Entre as ciências, a sociologia perpassa todas as graduações por estudar as relações e as interações sociais, independente da função e responsabilidade das pessoas no grupo e na sociedade.
Estudar a sociologia contribui para compreender a organização e interação da sociedade, assim como as regras por ela impostas e a interligação das pessoas em grupos, associações, movimentos sociais e instituições, de uma rua até as comunidades organizadas mais distantes, inclusive em e entre diferentes países – a globalização e, isto, independe do curso, da ideologia, do grupo social que a pessoa esteja inserida.
Diante do exposto, uma pergunta direta: Como surgiu a sociologia? Surge no séc. XIX visando compreender o que estava acontecendo na sociedade da época: revolução industrial, revoltas dos trabalhadores, mulheres, homens e crianças trabalhando muitas vezes alem das forças físicas, apresentando problemas de saúde...
Desta forma, a sociologia faz parte do conjunto das Ciências Sociais e é ela uma Ciência Social. Por que é uma Ciência? Por ser um “conjunto de conhecimentos obtidos através da investigação sistemática, objetiva e empírica” (MEGALE, 1989, p. 41) e, “para se chegar ao status de ciência, o conhecimento deve passar por etapas entre as quais a verificação ou confirmação dos resultados” (p. 42) do que se pesquisa. Para tal, devemos formular o conhecimento do objeto a ser pesquisado. Para a formulação é necessário pesquisas bibliográficas, de campo e leituras a respeito do objeto que almejamos pesquisar. Para Megale, a formulação significa,
[...] vários conhecimentos vinculados entre si, formando uma teoria que constantemente está sendo posta à prova. Segundo, esta teoria ou conjunto de conhecimentos foi gerado por investigação (estudo, pesquisa, busca de dados) sistemática, ou seja, criteriosa, metódica, dentro da lógica ou coerência. Terceiro, a investigação é objetiva, isto é, visa à verdade, retrata fielmente o objeto ou fenômeno estudado, sem opiniões pessoas dos pesquisadores e interferir nos resultados. Quarto, investigação empírica indica que o conhecimento é fruto de experiência, de tentativas de repetir o fenômeno, para se assegurar, com certeza, de seus resultados (Ibdem).

Até enquanto as Ciências Sociais faziam parte de uma única ciência, ou seja, não havia sido dividida entre sociologia, economia, antropologia, política, entre outras, nela se pesquisava e estudava “o comportamento social humano em suas várias formas e organização” (OLIVEIRA, 1997, p. 7). Atualmente, além das que citamos, outras fazem parte das especificidades como a sociologia jurídica, da enfermagem, do esporte, da educação, rural... Alguns pesquisadores ainda colocam a história e a geografia nesta divisão, cada uma delas com uma função específica.
Verifiquemos o objeto de estudo de algumas ciências sociais.
A sociologia é a ciência que estuda as relações e as interações sociais, formas de associação, comportamento e vida social no grupo, estruturas e vida social, a cooperação, competição e conflito na sociedade e ou grupo social. A sociologia é o estudo dos grupos sociais e tudo que nele decorre em função da interação e relações sociais, sobretudo da abordagem dada pelo pesquisador direcionada às sociedades moderna e contemporânea. É como descreveu Cristina Costa (1997, p. 11), “a sociologia é uma ciência que se define não por seu objeto de estudo, mas por sua abordagem, isto é, pela forma como pesquisa, analisa e interpreta os fenômenos sociais”. Quando o estudo estiver voltado às sociedades primitivas, a ciência que dela se preocupa e a Etnologia que, por sinal, é muito próximo da sociologia.
Entre outras conjecturas, sociologia “é o estudo das regras sociais e dos processos que ligam as pessoas em associações, grupo e instituições”, assim como é o estudo dos “fenômenos que ocorrem quando vários indivíduos se encontram em grupos de tamanhos diversos, e interagem no interior desses grupos”. O interesse da sociologia abrange desde o comportamento das pessoas em grupo, enquanto seres sociais em “uma rua até o processo global de socialização (globalização)” (WIKIPEDIA, 2007).
A sociologia é resultado dos acontecimentos sociais e econômicos do mundo moderno: Revolução Industrial e Francesa no século XVIII, problemas de saúde e moradia, revolta dos trabalhadores, confrontos entre trabalhadores e burguesia, exploração dos trabalhadores na Inglaterra, França e Alemanha nos séculos XVIII e XIX, incluso o trabalho de mulheres e crianças em até 20 horas por dia. Marx descreve uma situação observada no início de 1866 que traduz o que ocorria no início da formação do sistema capitalista e que levou ao surgimento da sociologia. Diz ele que,
Durante os últimos 5-6 anos ele [o trabalho] foi sendo aumentado para 14, 18 e 20 horas e quando a afluência de viajantes é particularmente intensa, como no período dos trens de excursões, estendia-se muitas vezes a 40 ou 50 horas sem interrupção. (MARX, 1988, p. 194).

A antropologia objetiva estudar a evolução humana e cultural: tudo o que o homem inventa e usa. Objetos materiais, valores, crenças, símbolos, costumes, comportamento..., ou seja, “pesquisa as semelhanças e as diferenças culturais entre os vários agrupamentos humanos” (OLIVEIRA, 2002, p. 10), como se originou e evoluiu a cultura, da antiguidade à contemporaneidade: religiões, magia, casamento... Assim como as influências dos grupos étnicos em uma sociedade. A diferença entre a Sociologia e Antropologia está nos problemas teóricos investigados e nos métodos de pesquisa utilizados por sociólogos e antropólogos do que com os objetos de estudo em si, pois ambas estudam a vida social em grupo com métodos diferenciados.
A economia ou sociologia econômica estuda a organização de grupos humanos e as relações econômicas voltadas às atividades para a satisfação de necessidades materiais: “produção, circulação, distribuição e consumo de bens e serviços” de mercadorias e troca (OLIVEIRA, 2002, p. 10). Para Lakatos, um exemplo do estudo desta ciência são as “conseqüências sociais das greves ou a influência das mesmas na deterioração da moeda”, assim como a “alteração da organização das empresas industriais no sentido da participação dos trabalhadores nos lucros da empresa” (LAKATOS, 1982, p. 28). Para Karl Marx, as pesquisas econômicas geralmente são influenciadas por teorias sociológicas.
A psicologia social estuda o comportamento dos indivíduos na sociedade, assim como as influências dos contatos e valores da sociedade sobre sua personalidade, resultando nas reações coletivas, na interação mútua e recíproca e nas alterações das condutas dos indivíduos do grupo e da sociedade em questão, moldando-os culturalmente sobre determinados temas ou assuntos sociais, políticos, econômicos ou culturais como natalidade, questão racial (LAKATOS, 1982, p. 24), orientação sexual no grupo/sociedade... Ou seja, a preocupação da psicologia é com o indivíduo em si e não com o grupo que ele está inserido. Acrescentemos que a psicologia social “se preocupa também com as motivações exteriores que levam o indivíduo a agir de uma forma ou de outra”, enquanto que “o enfoque da Sociologia é na ação dos grupos, na ação geral” (WIKIPEDIA, 2007).
Não é diferente com a sociologia da enfermagem, sociologia jurídica, do esporte, rural, urbana, industrial e outras.
De forma ampla, as Ciências Sociais visam pesquisar o comportamento social humano e suas várias formas de organização e, para isto subdivide-se em especialidades visando a investigação científica (trabalho, escola, lazer, cultura...). No nosso caso, interessa-nos o estudo da sociologia e, para cada curso, sua especificidade. O professor que for trabalhar na Educação direcionará a sociologia à Educação; se na economia, a intitulará sociologia econômica; se no campo, pode-se denominar sociologia rural; quando urbana, sociologia urbana; no curso de direito, sociologia jurídica e assim por diante.


E a Sociologia no Brasil?

No Brasil, a sociologia aparece introduzida no sistema escolar, nos currículos dos cursos secundários entre 1925 e 1928 sobre orientação positivista buscando realizar análises objetivas da realidade para então compreendê-la.
Houve tentativas de inserção da sociologia em décadas anteriores, mas somente na década de 1920 é que a mesma adentrou o sistema educacional e, na década de 1930, adentra o ensino superior. Para melhor compreender a Sociologia no Brasil, orientamos conhecer as produções científicas de Fernando Azevedo (1894-1974), Antonio Candido de Mello e Souza (1918-) e Florestan Fernandes (1920-1995).


Referências Bibliográficas

CHAVES, Lázaro Curvêlo. O surgimento da sociologia e o socialismo. Disponível em: <http://www.culturabrasil.org/oquee.htm>. Extraído em 01 mar 2007.

COSTA, Cristina. Sociologia – Introdução à ciência da sociedade. 2ª ed., São Paulo: Moderna, 1997.

LAKATOS, Eva Maria. Sociologia geral. 4ª ed., São Paulo: Atlas, 1982.

MARX, K. O capital: crítica da economia política. BARBOSA, R.; KOTHE, F,R. (Tradutores). 3ª ed., São Paulo: Nova Cultural, 1988 – Os economistas.

MEGALE, Januário Francisco. Introdução às ciências sociais – roteiro de estudos. São Paulo: Atlas, 1989.

OLIVEIRA, Pérsio Santos de. Introdução à Sociologia. 24ª ed., São Paulo: Ática, 2002.

TOMAZI, Nelson Dacio. Sociologia da educação. São Paulo: Atual, 1997.

WIKIPÉDIA. Sociologia. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Sociologia>. Extraído em 28 fev 2007.

 

19 abril, 2007

500 ANOS DE INVASÃO

Gerson de Souza Melo[1]
Cacique Pataxó Hã, Hã, Hã – Estado da Bahia - Brasil

Gravação e transcrição: Elias Canuto Brandão[2]
Foto: Antonio Cruz - ABr


Quero agradecer o CIMI[3] que nos trouxe aqui. Também agradecer o presidente da FUNAI[4] que também deu apoio à gente. Agradecer a todos aqui presentes. Agradecer os deputados presentes.
Eu estou muito alegre com este prêmio. Estou nem podendo falar direito. É porque quando a gente recebe um prêmio desses, a gente se lembra de muitas coisas que já se passou pela vida da gente. Muitas coisas que já passou o nosso povo indígena no Brasil, o que vem passando nós povo Pataxó Hã, Hã, Hã.
Temos a terra que foi demarcada em 1936, Demarcada, comungada e registrada em três cartórios e essa terra foi invadida por coronéis. Foi invadida por fazendeiros e, nessa invasão mataram muito nosso povo Pataxó Hã, Hã, Hã. De lá para cá nós vem sofrendo pela luta para sobreviver e a gente sabe que tem os políticos, alguns políticos que maltrata o nosso povo indígeno, principalmente lá no Sul da Bahia.
O que está acontecendo naquela região, nós agradece muito o nosso senador Antônio Carlos Magalhães, que dá título aos fazendeiros, um título que ele não podia dá, que é uma terra indígena demarcada, registrada e homologada.
O governador Roberto Santo que deu título também da nossa terra para o fazendeiro. Essas pessoas é que ajudam a fazer o conflito na nossa região. Hoje nós temos lá mais de 300 policiais cercando nossa tribo sem nós puder sair para canto nenhum, ameaçado de morte...
Nós, em novembro de 1999, entramos na nossa terra e os policiais em contato com o senhor governador Sérgio Borges, invadiram nossa área e derrubaram e dispararam tiros, mais de 15 tiros e nesses tiros morreu dois policiais da polícia militar. E hoje eles estão jogando para cima de nossa comunidade. Está o presidente da FUNAI aqui presente que ele esteve na região e viu a violência daquela região contra o nosso povo Pataxó Hã, Hã, Hã. E ainda o governador Sérgio Borges não tem vergonha de chegar na televisão e dizer que ele mandou os policiais para lá para dar paz naquela região. A paz que ele está dando naquela região é que na semana passada os policiais dele matou um rapaz e baleou outro. É a paz que ele está dando na região da gente.
Um coronel, Santana, invadiu nossa área acuando nosso povo velho, nossas crianças, invadiram as casas, derrubando portas e fazendo o maior massacre do povo da gente. A gente fica revoltado do governo dizer que está fazendo uma festa do descobrimento do Brasil 500 anos.
Para nós, a nossa terra não foi descoberta. Nossa terra já existia naquele tempo. Para nós foi uma invasão dos portugueses dentro de nossa terra. Agora como é que nós índios vamos festejar 500 anos que eles dizem, 500 anos de descobrimento com o nosso povo indígeno no Brasil, tendo estupro, maltratando o nosso povo indígeno até que depois de demarcar toda a terra indígena, não demarcou, não tirou toda a medida da terra.
Como é que nós índios vamos comemorar 500 anos. O que é que temos a comemorar? Nós não temos nada a comemorar. O que é que o governo (esse povo) está fazendo com a gente?
Nós precisamos viver. Nós somos seres humanos, igualmente a outro qualquer. Nós somos gente. Hoje o nosso povo vive sofrendo. Lá morreu 13 lideranças da gente de 1982 para cá. O Dijalma foi castrado, tirado, cego do olho, foi tirado a unha e a polícia federal foi lá, pegou o rapaz no lugar que mataram. Sabe quem foi que matou e até hoje não teve justiça, 13 liderança.
A única liderança que morreu que as pessoas estão presas (os criminosos) foi o que morreu aqui em Brasília, o nosso parente Gualdino. Porque morreu aqui na Capital Federal. Mas mesmo assim eles tentaram abafar o problema escondendo a gente num porão para a gente não sair e não desviar da coisa que aconteceu. Naquela época o Ministério da Justiça e o presidente da FUNAI é que tinham aí.
O que é que eles vêm fazendo com a gente. Os políticos, o deputado Rolam. Castrando nossas índias; operando para não ter mais filhos, para gastar com nossa nação. E isso, no dizer dele, até hoje não foi tomada providências nenhuma e é deputado federal que faz parte da Comissão de Direitos Humanos. Esse que é o grande massacre que vem acontecendo com o nosso povo indígeno no Brasil.
Eu estou muito alegre de receber o prêmio. Mas por outro lado lembro de tanta coisa que já aconteceu com o povo da gente que também fica vendo nós triste com os massacres que estão acontecendo.
O Brasil tem 500 anos que foi invadido. Mas existe e ta existindo o mesmo. Não mudou nada de 500 anos para cá. Ainda existe índio na escravidão. Existe o negro na escravidão. Existe o pobre na escravidão. Não mudou nada até hoje.
O que é que nós índios, nós negro, o povo pobre, o desempregado, vai ter a comemorar estes 500 anos? O que? Massacre? Morte? A discriminação em cima de nosso povo?
Eu queria que de agora para frente, os políticos, a justiça que escreveu a Lei do país, que eles faça cumprir essa Lei.
Eu vejo o presidente da República, esses dias, falando em democracia. Eu quero saber, minha gente, qual a democracia que tem nesse país. Democracia que tem nesse país é só para rico. O pobre é massacrado. Vive sofrendo. Hoje, quem tem poder é quem tem dinheiro, principalmente lá no sul da Bahia. Lá, quem tem poder é quem tem dinheiro. O povo fala que nós índio somos selvagem. Mais selvagens são esses políticos que tem aí, que vive fazendo de tudo... (aplausos).
A nossa terra tem 18 anos que está registrando no Tribunal. Até hoje não foi decidido nada. Nosso povo está sofrendo lá, passando fome, sem escola, sem assistência médica, sem uma agricultura para sobreviver, sem terra para plantar.
E sendo que nossa terra é de 54.100 (cinqüenta e quatro mil e cem) hectares. Nossa terra só tem 2 mil e poucos hectares em nossa mão. O resto está nas mãos do fazendeiro. Agora, o cachorro do fazendeiro, o gado do fazendeiro, bebe água boa e nós bebemos água que vem de outro canto porque lá na terra que estamos não tem água.
Se nós precisamos plantar, temos que plantar um quadrozinho pequenininho porque não tem terra para plantar. E o fazendeiro lá, é plantando, criando seu gado, fazendo de tudo dentro de nossa terra. Será gente, que nós não temos direito de viver?
Eu queria que vocês político, entidade... Eu queria que vocês ajudassem a gente viver. Porque nós precisamos viver. Nós somos seres humanos igualmente como vocês. Nós não somos bicho como certos políticos, certas autoridades falam aí. Nós somos gente igualmente como outro qualquer. E quem está sofrendo em nosso país, não são sós os Pataxós Hã, Hã, Hã, não. É todo índio no Brasil que está aí sendo massacrado, sendo perseguido. Nós hoje temos um órgão da FUNAI fracassada aí no governo, que hoje não tem recurso para nada. Hoje está uma situação da gente... Eu não sei como é que esse governo diz que quer fazer festa gastando tantos milhões lá em [...], naquela região, sendo que nós somos os primeiros habitantes desta terra tanto sofrendo e eles gastando muitos milhões lá.
Porque não pega este dinheiro e demarca nossa terra, tira os fazendeiros de dentro da terra da gente? (aplausos). Por que não pega este dinheiro e dá emprego para o povo, faz o povo ficar com a barriga cheia?
Não fazer festa aqui do jeito que ele está querendo fazer, gastando dinheiro num dia de festa, sendo que este dinheiro dá para encher a barriga de muita gente.Muito obrigado (aplausos).
===========
[1] Gerson de Souza Melo, cacique Pataxó Hã, Hã, Hã. Pronunciamento durante Cerimônia em que recebeu o Prêmio Nacional de Direitos Humanos do MNDH (Movimento Nacional de Direitos Humanos – Brasil). Plenário da Câmara dos Deputados em Brasília/DF, manhã do dia 16 de março de 2000, primeiro dia do “XI Encontro Nacional do MNDH, que teve a continuidade em Luziânia/GO.
[2] Elias Canuto Brandão, é professor doutor em Sociologia; conselheiro nacional do Movimento Nacional de Direitos Humanos (MNDH) e coordenador do MNDH no Paraná. Na época do XI Encontro Nacional era mestrando em Educação e membro do CDH-Maringá/PR.
[3] CIMI – Conselho Indigenista Missionário, criado em 23 de abril de 1972.
[4] FUNAI – Fundação Nacional do Índio, órgão do governo brasileiro subordinado ao Ministério da Justiça, criado pela Lei nº 5.371, de 05 de dezembro de 1967.

15 março, 2007

Índio surpreende cúpula Européia

Guaicaípuro Cuatemoc
Madri, Espanha - Maio de 2002

O discurso abaixo foi feito por Guaicaípuro Cuatemoc - cacique de uma nação indígena da América Central - aos principais chefes de Estado da Comunidade Européia, deixando-os perplexos e sem palavras, durante a conferência dos chefes de Estado da União Européia, Mercosul e Caribe, em maio de 2002 em Madri. Foi um discurso histórico que merece ser conhecido por todas as nações.
Eis o discurso:
"Aqui estou eu, descendente dos que povoaram a América há 40 mil anos, para encontrar os que a encontraram só há 500 anos. O irmão europeu de aduana me pediu um papel escrito, um visto, para poder descobrir os que me descobriram. O irmão financista europeu me pede o pagamento ao meu país-, com juros, de uma dívida contraída por Judas, a quem nunca autorizei que me vendesse.
Outro irmão europeu me explica que toda dívida se paga com juros, mesmo que para isso sejam vendidos seres humanos e países inteiros sem pedir-lhes consentimento.
Eu também posso reclamar pagamento e juros. Consta no "Arquivo da Companhia das Índias Ocidentais" que somente entre os anos 1503 e 1660 chegaram a São Lucas de Barrameda 185 mil quilos de ouro e 16 milhões de quilos de prata provenientes da América.
Teria sido isso um saque? Não acredito, porque seriapensar que os irmãos cristãos faltaram ao sétimo mandamento! Teria sido espoliação? Guarda-me Tanatzin de me convencer que os europeus, como Caim, matam e negam o sangue do irmão.Teria sido genocídio? Isso seria dar crédito aos caluniadores, como Bartolomeu de Las Casas ou Arturo Uslar Pietri, que afirmam que a arrancada do capitalismo e a atual civilização européia se devem à inundação de metais preciosos tirados das Américas!
Não, esses 185 mil quilos de ouro e 16 milhões de quilos de prata foram o primeiro de tantos empréstimos amigáveis da América destinados ao desenvolvimento da Europa. O contrário disso seria presumir a existência de crimes de guerra, o que daria direito a exigir não apenas a devolução, mas indenização por perdas e danos.
Prefiro pensar na hipótese menos ofensiva. Tão fabulosa exportação de capitais não foi mais do que o início de um plano "MARSHALL TESUMA", para garantir a reconstrução da Europa arruinada por suas deploráveis guerras contra os muçulmanos, criadores da álgebra, da poligamia, e de outras conquistas da civilização. Para celebrar o quinto centenário desse empréstimo, podemos perguntar: Os irmãos europeus fizeram uso racional, responsável ou pelo menos produtivo desses fundos? Não.
No aspecto estratégico, dilapidaram nas batalhas de Lepanto, em navios invencíveis, em terceiros reichs e várias formas de extermínio mútuo. No aspecto financeiro, foram incapazes, depois de uma moratória de 500 anos, tanto de amortizar o capital e seus juros, quanto independerem das rendas líquidas, das matérias-primas e da energia barata que lhes exporta e provê todo o Terceiro Mundo.
Este quadro corrobora a afirmação de Milton Friedman, segundo a qual uma economia subsidiada jamais pode funcionar, e nos obriga a reclamar-lhes, para seu próprio bem, o pagamento do capital e dos juros que, tão generosamente, temos demorado todos estes séculos em cobrar. Ao dizer isso, esclarecemos que não nos rebaixaremos a cobrar de nossos irmãos europeus, as mesmas vis e sanguinárias taxas de 20% e até30% de juros que os irmãos europeus cobram aos povos do Terceiro Mundo. Nos limitaremos a exigir a devolução dos metais preciosos, acrescida de um módico juro de 10%, acumulado apenas durante os últimos 300 anos, com 200 anos de graça.
Sobre esta base, e aplicando a fórmula européia de juros compostos, informamos aos descobridores que eles nos devem 185 mil quilos de ouro e 16 milhões de quilos de prata, ambas as cifras elevadas à potência de 300, isso quer dizer um número para cuja expressão total será necessário expandir o planeta Terra. Muito peso em ouro e prata... quanto pesariam se calculados em sangue? Admitir que a Europa, em meio milênio, não conseguiu gerar riquezas suficientes para esses módicos juros, seria como admitir seu absoluto fracasso financeiro e a demência e irracionalidade dos conceitos capitalistas.
Tais questões metafísicas, desde já, não nos inquietam, índios da América. Porém, exigimos assinatura de uma carta de intenções que enquadre os povos devedores do Velho Continente e que os obriguem a cumpri-la, sob pena de uma privatização ou conversão da Europa, de forma que lhes permitam entregar suas terras, como primeira prestação de dívida histórica..."
Quando terminou seu discurso diante dos chefes de Estado da Comunidade Européia, o cacique Guaicaípuro Guatemoc não sabia que estava expondo uma tese de Direito Internacional para determinar a Verdadeira Dívida Externa.
Agora resta que algum Governo Latino-Americano tenha a dignidade e coragem suficiente para impor seus direitos perante os Tribunais internacionais. Os europeus teriam que pagar por toda a espoliação que aplicaram aos povos que aqui habitavam, e com juros civilizados. Supõe-se que Evo Morales tenha lido esse discurso dias atrás...